O strip-tease do poder: é a política, estúpidos!

Por: Saulo Krichanã

Bastaram 06 (seis) meses para o país assistir entre incrédulo e envergonhado, através de um MBA intensivo de “Política para não Políticos”, através de um EAD didático e inequívoco, no melhor estilo BBB – sem a necessária censura prévia para menores de 80 anos –, como funcionam e se articulam na prática os três poderes da República, em busca da estabilidade do país.

Não foi preciso um novelista da TV Globo ou sequer o Pedro Bial para cutucar e excitar participantes ou a plateia que acompanhou os trabalhos de plenários, comissões e votações que deixariam Dias Gomes e Odorico Paraguaçu – para não falar dos menos esclarecidos Niccollò de Machiavelli, um certo Michel (ôpa!) Eyquem (quem?) de Montaigne, e um tal de Charles-Louis de Secondat, vulgo Montesquieu – entre surpresos e admirados pela inequívocas demonstrações de vilania, rapapés e chicanas de toda a ordem que então se perpetraram e sucederam…ao vivo!

A plateia também mal percebeu que entrou numa espécie de “túnel do tempo”. E escolheu seus personagens; quem devia ir ou não ir para o “paredão”; quem devia casar ou descasar com quem; houve até gente seríssima que se integrou de tal forma ao enredo, que passou a escolher (e a torcer furibundamente) por seu “malvado preferido”, remetendo a ética ou os princípios às favas, ora bolas!

A sofreguidão e o encanto não sobreviveram 15 minutos, no entanto: quem era mocinho virou bandido (com toga ou sem toga); aliados tomaram bolas nas costas como em qualquer pelada de chão batido (e não nos carpetes azuis diáfanos do Senado); decantou-se, por bondade samaritana, por certo, a Constituição; assim como se descobriu que ela, em cada uma das Casas Legislativas, pode ser reinterpretada a cada nova circunstância; e que, nestes casos, um terceiro poder não pode se imiscuir no outro, ainda que ache suas decisões bizarras ou levianas.

Consta que dois ex-presidentes, um daqui mesmo e outro do exterior (ainda que já falecido…mas isso, vai ver, é coisa que se pode revogar também) , estariam consultando seus botões para invocar perdas e danos e exigir direito de regresso cósmico, respectivamente…
Todos os gatos, na tarde brasiliana de São Bartolomeu, parecem tristemente pardos a esta altura dos acontecimentos…

Quem só reporta (ôpa!) os acontecimentos na área econômica, também está ficando piradinho: afinal, o tal ajuste é maior do que seria antes; os cortes cirúrgicos vitais geraram despesas obrigatórias; aumentos seletivos passaram a ser palatáveis (pois sempre estão “dentro” de margens existentes); e, agora, há até a autorização de o Executivo dobrar (de 10% para 20%) a expansão dos gastos suplementares sem que se recorra ao Legislativo – desde que dentro (eita!) da “meta”, além da margem de 20% já obtida pela DRU.

No frigir dos ovos, a matemática da estabilização é muito simples: 172 votos na Câmara ou 54 no Senado proveem o equilíbrio de fio da navalha ao presidencialismo de coalizão (a conta similar se faz a cada um dos 27 Estados e a cada um dos 5670 municípios do país).
Basta atender ao que estes verdadeiros senhores da guerra ( e suas bandeiras ou partidos) desejam…

Este equilíbrio pode ser aplacado das mais diversas formas: se fosse possível fazer uma regressão linear para explicar esta fórmula, a “componente aleatória” de seus termos teria muito mais poder explicativo do que sua “componente funcional”, o que deve dar uma proxy razoável da equação do déficit público agregado (entes federados, empresas estatais e todos os penduricalhos) que os males do país explicam.

Sendo assim, QUALQUER GANHO FISCAL nunca será de todo suficiente para aplacar o apetite pantagruélico destas 226 pessoas sobre as quais repousam os desígnios finais e fatais da sociedade.

É a contrapartida da desigualdade econômica pikettyana: a desigualdade de poder brasiliana…
País acostumado a parir jabuticabas em todos os campos do conhecimento humano, o Brasil subverte até o epíteto mais famoso dos marqueteiros universais: é a economia, estúpidos!

No dia a dia ou nos Facebooks da vida, se percebe claramente que o strip-tease a que os representantes do Poder Político (dos três poderes estruturados constitucionalmente) se submeteram sem nenhum pudor, decoro ou constrangimento, pode ter gerado um ovo de serpente que lhes será fatal.

Com efeito, batalhas e confrontos realizados (de verdade e de Pirro), pode-se ter perdido inelutavelmente a guerra da credibilidade, para o bem ou para o mal.

Pra o bem, quer dizer: “não quero saber de churumelas; já sei que a maior parte da bagunça fiscal pode ser recuperada acabando com as estruturas de governo (em todos os níveis) que só parecem se justificar existem para alimentar Pantagruel e seus discípulos. E, portanto, não é necessário mais impostos, mais onerosidades e, sim, uma ampla REFORMA DO ESTADO para lipoaspirar suas ineficiências cumulativas.

Fazer mais do mesmo…nunca!!!

Veja: reforma do Estado e não da POLÍTICA. Ou alguém acha que esses 226 senhores farão algo de moto próprio para perder poder? Ainda que premidos por uma Constituinte eleita apenas para este fim?

Assim, é preciso ver o que REALMENTE se precisa de Estado para atender as necessidades da sociedade…e não ao contrário!

Para o mal, pode significar: “também quero ser um dos alegres comensais desta boquinha…”.

E aí, nunca haverá superávit fiscal que aguente o tranco desta República cada vez mais envelhecida e esclerosada.

Portanto, jabuticabemos: é a política, estúpidos!

Pois a economia só não faz milagres!!!

Saulo Krichanã, é diretor-geral do ISITEC e editor do BLOGCONPPP

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