Novos tempos para elas

A percepção de que o mercado de trabalho em tecnologia e engenharia tem sido menos hostil às mulheres é compartilhada pelo diretor de graduação do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec) de São Paulo, José Marques Póvoa.

A percepção de que o mercado de trabalho em tecnologia e engenharia tem sido menos hostil às mulheres é compartilhada pelo diretor de graduação do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec) de São Paulo, José Marques Póvoa. De acordo com ele, a maior parte dessas profissionais têm uma visão sistêmica maior do que a dos homens. Por isso, tendem a serem disputadas por um mercado que espera dos profissionais mais do que conhecimentos técnicos. “Elas têm mais habilidade para criar sinergia entre as áreas”, constata. Outro aspecto desejado pelos empregadores, na avaliação de Póvoa, é a capacidade de avaliar o contexto em que a organização está inserida.

A engenheira Lenice Santos, 58 anos, enfrenta esse desafio como prestadora de serviços em uma grande estatal. É ela quem acompanha os processos de legalização dos sistemas de telecomunicações do órgão. Para exercer essa atividade, Lenice precisa se manter atualizada com as novidades tecnológicas e regulatórias do setor. A formação multidisciplinar tem ajudado-às bastante nessa tarefa. Ainda no ensino médico, ela cursou a escola de eletrotécnica. Em seguida, graduou-se em engenharia elétrica e fez especialização em telecomunicações. Formou-se, também, analista de sistemas e bacharel em direito. Atualmente, faz pós-graduação em gestão de processos. 

“Quando comecei minha carreira na engenharia, era uma ousadia muito grande uma moça negra desejar se formar em uma área técnica. O que se esperava era, no máximo, fazer uma escola normal e virar professora. Foi difícil, mas com determinação e foco, entrei no mercado. De lá pra cá, foram só evolução e conquistas”, comemora a engenheira, que também já trabalhou no setor de telefonia.

Lenice lembra já ter sido dispensada em pelo menos cinco processos de seleção, mesmo tendo sido aprovada nas fases de conhecimento técnico e aptidão psicológica. “No momento da entrevista pessoal eles me dispensavam com o argumento de que a vaga era só para homens ou mesmo pelo fato de a empresa ainda não dispor de vestuários e banheiros femininos. Era muito frustrante”, recorda.

Conselho para quem deseja chegar no topo da profissão? A engenheira é enfática: empenhar-se na formação acadêmica, buscar uma especialização já no início da carreira, investir em pós-graduação, agregar conhecimento em línguas estrangeiras, além de manter-se antenada para a movimentação do mercado e o desenvolvimento tecnológico. Esse “mix” de esforços pode ajudar na escolha de caminhos e favorecer o futuro posicionamento no mercado de trabalho, que segue mais favorável para os homens. 

BOAS PERSPECTIVAS

Empoderar as mulheres para enfrentar o preconceito no mercado de trabalho demanda esforços pessoais e coletivos. No âmbito pessoal, buscar um instrutor de carreiras pode ser importante. Mais conhecido como coach, esse profissional ajuda a reorientar carreiras e a identificar que aspectos pessoais precisam ser fortalecidos para vencer em condições hostis. Coach pessoal, organizacional e executiva, Sônia Braga orienta mulheres com a propriedade de quem passou boa parte de sua carreira trabalhando com tecnologia da informação em ambientes predominantemente masculinos. Ela perdeu a conta das reuniões nas quais era a única mulher. A premissa para ocupar um cargo de gestão era ter o uso do corpo colocado sob suspeita. 

“Evoluímos um pouco aí. Mas tudo é um processo e ainda temos passos a dar. É importante essa consciência, até para os avanços dos quais ainda necessitamos”, ressalta Sônia. De acordo com ela, muitas vezes o preparo técnico das mulheres é o aspecto mais simples. Enfrentar o preconceito e a competição demanda preparo emocional, até mesmo para identificar potencialidades, estabelecer os limites das relações, saber o momento do diálogo ou identificar a hora de tomar medidas administrativas ou jurídicas. 

“A educação no país é tecnicista, o que faz com que aprendamos uma série de coisas das quais nunca precisaremos na vida. Curiosamente, deixamos de aprender coisas fundamentais, como o empreendedorismo”, analisa a coach. “Saímos de cursos de nível elevadíssimo, com conhecimento técnico no estado da arte, mas temos dificuldades para nos relacionarmos. E aí tem início a arrasadora maioria dos problemas encontrados hoje no mundo organizacional e laboral.”

Para mudar essa cultura organizacional estruturada no preconceito de gênero e também de raça, a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) instituiu em 2005 o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça. Várias empresas das áreas de engenharia e tecnologia da informação já aderiram a essa iniciativa (veja box). Dentre elas, a Petrobras, empresas do setor elétrico, a Microsoft e grandes bancos. O programa visa promover mudanças nos mecanismos de inclusão e ascensão para que as mulheres e as pessoas negras possam permanecer no mercado de trabalho e ascender nas empresas. 

Na adesão ao programa, as empresas se comprometem a fazer um levantamento do corpo funcional para identificar o número de homens e mulheres, brancos e negros, para a partir de então desenvolver ações de equidade. Segundo a coordenadora-geral de Autonomia Econômica das Mulheres da SPM, Simone Schäffer, as empresas do setor elétrico têm se destacado por aumentar o número de mulheres nos espaços de direção, ampliar as licenças paternidade e maternidade, criar salas de amamentação e conceder auxílio-creche. 

“Na área da engenharia observamos um esforço de adequação dos equipamentos de proteção individual e das instalações da empresa para as necessidades das mulheres. Tem sido importante também a utilização de linguagem inclusiva de gênero. Afirmar que existem vagas para técnicos e técnicas contribui para que as mulheres consigam se enxergar nesses postos”, avalia Simone, que recomenda o envolvimento de diversas áreas das empresas nas ações de promoção da equidade. A área de comunicação é considerada estratégica. 

“Um bom exemplo é a Petrobras, que passou a utilizar em suas propagandas imagens de mulheres nas plataformas de petróleo. Observamos uma boa repercussão e, inclusive, um aumento no número de mulheres interessadas em trabalhar nessa área”, revela a coordenadora. 

De acordo com ela, um dos desafios persistentes nas empresas que já conseguiram ampliar a ascensão de mulheres aos cargos de chefia é garantir que as mulheres negras estejam nesse contingente. Criar mecanismos de flexibilização do horário de trabalho para que as responsabilidades domésticas sejam compartilhadas entre homens e mulheres também demanda uma atenção extra das organizações. 

Outro desafio é combater o assédio moral, que em muitos casos decorre de atitudes machistas e racistas. Nesses casos, além da conscientização, as empresas já começam a adotar medidas administrativas ou jurídicas. Cada dia mais, a diversidade de gênero e raça nas organizações deixa de ser uma preocupação e interesse das mulheres para se tornar um desejo das empresas, que já colhem os frutos positivos de um ambiente organizacional marcado pelo respeito e pela multiplicidade de visões. 

Fonte: Correio Braziliense