“Não há desenvolvimento sem engenharia”

A afirmação foi feita pelo embaixador brasileiro Samuel Pinheiro Guimarães ao Jornal do Engenheiro na TV. Nesta edição, Engenheiro reproduz trechos da entrevista em que o diplomata apresentou suas concepções sobre temas fundamentais, como desindustrialização, inovação tecnológica e desnacionalização. Defensor do desenvolvimento nacional sustentável, ele foi um dos palestrantes no VIII Conse (Congresso Nacional dos Engenheiros), realizado pela FNE em São Paulo, em setembro de 2012.

A CNTU (Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados) lançou a campanha “Brasil Inteligente”, cujo foco é educação para o desenvolvimento. Qual a sua opinião sobre essa iniciativa?
Samuel Pinheiro – Esse é um tema fundamental. O processo educacional tem como finalidade fazer com que as pessoas se tornem trabalhadores no seu sentido mais amplo e sejam capazes de apreciar as manifestações culturais. Do ponto de vista da transformação em um indivíduo produtivo, é de grande importância a questão da engenharia e do investimento. É extremamente importante que, ao mesmo tempo em que se forme mão de obra, se criem oportunidades a todos os que trabalham, aqueles que não vivem de renda. Às vezes o indivíduo se forma com determinado conteúdo, mas não é o que a sociedade mais precisa para resolver suas necessidades. Esse é também um desafio muito grande, porque como a sociedade vai evoluindo, surgem novas tecnologias e atividades. É necessário esforço muito grande de retreinamento das pessoas para que elas possam adquirir novos conhecimentos e trabalhar de forma eficiente e digna.

Outro grande desafio é o fenômeno da desindustrialização. Como o analisa?
Samuel Pinheiro – Concordo que há um processo de desindustrialização e há alguns indicadores disso. Um deles é a redução da importância dos produtos industriais na pauta de exportações, mas isso não é suficiente, porque poderia haver o mesmo volume, mas com o aumento dos minérios e dos produtos agrícolas, as percentagens teriam mudado. Acontece que está havendo também uma redução da produção interna, desemprego em certos setores industriais e aumento da participação de importados no total do consumo interno. Isso é muito importante, mas tem aspectos interessantes. Fala-se da competitividade, da carga tributária, mas em outros países essa é muito maior, no entanto, são altamente competitivos. Os empresários têm como defesa permanente a ideia de que a carga tributária é alta, mas ao mesmo tempo demandam serviços públicos que só podem existir com impostos. Por outro lado, é curioso que o Brasil exporta produtos manufaturados para países como os Estados Unidos em grande quantidade e não para a China ou Europa. Isso tem a ver com a política das grandes empresas multinacionais instaladas no Brasil. Elas obedecem a um planejamento global. Esse é um fenômeno que tem a ver com as dificuldades de diversificação das exportações.

O governo brasileiro está tentando diversificar seus parceiros comerciais?
Samuel Pinheiro – Tem sido feito um esforço grande nesse sentido e houve resultados muito interessantes. Para dar um exemplo, a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) é uma empresa industrial capaz de exportar para diferentes países de todo o mundo. Houve um esforço grande na procura por diversificar essas exportações e de produtos agrícolas e agroindustriais, como frango. Quando se tomam os números, vê-se que o aumento das exportações do Brasil para países africanos é realmente muito significativo. As nossas próprias exportações de produtos primários, principalmente minério de ferro e soja para a China, mas também para outros países, são extraordinárias, sem prejuízo no comércio com os Estados Unidos ou Europa.

Como estão as relações comerciais com nossos vizinhos?
Samuel Pinheiro – O grande volume de exportações se verifica para os Estados Unidos e América do Sul, talvez o segundo maior mercado brasileiro para produtos industriais. Assim como há uma assimetria muito grande entre o Brasil e os países da América do Sul em geral, tanto em dimensão territorial quanto das empresas, a própria oferta exportável brasileira é muito maior que a dos seus vizinhos. É necessário um entendimento maior que permita a todos os estados se industrializarem.

Fale um pouco sobre a importância da inovação tecnológica e a atuação fundamental dos engenheiros nesse processo.
Samuel Pinheiro – Inovação tecnológica só interessa se é introduzida no processo produtivo, porque é o que torna a empresa mais competitiva. Temos uma grande dificuldade, relativa ao grau de desnacionalização da economia. No Brasil, há filiais de unidades produtivas das maiores empresas do mundo, inclusive em termos de tecnologia, que, contudo, não é feita aqui, mas em laboratórios nos seus países de origem ou até em outros. Essas empresas sabem perfeitamente a importância de investir em pesquisa tecnológica, conhecem os endereços das universidades brasileiras, as quais têm gerado indivíduos absolutamente capazes de inovação tecnológica, como todas as equipes da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), as que criaram a Embraer, as que trabalham na Petrobras. Não há desenvolvimento social de longo prazo sem engenharia, sem ampliação da capacidade produtiva no País. Ao mesmo tempo, é necessário que toda tributação trate de forma muito diferente as empresas que investem em tecnologia no Brasil e aquelas que não investem.

*Por Soraya Misleh/Entrevista publicada no jornal da Federação Nacional dos Engenheiros – FNE