Histerese e os efeitos deletérios da apreciação cambial

Leia o artigo do economista e pesquisador Paulo Gala, que discute os efeitos da apreciação cambial na estrutura produtiva brasileira

Nos últimos 10 anos os empresários brasileiros se especializaram em produzir commodities, bens agrícolas, serviços não sofisticados e prédios. Quais foram os negócios que mais prosperam no país da última década? Shopping centers, prédios comerciais e residenciais, lojas de varejo de todo tipo (cabelereiros, restaurantes, vestuário, concessionárias de automóveis, etc.). Grandes obras de infraestrutura, petróleo, etanol, café e minério de ferro.

Esses negócios prosperaram graças ao boom de credito, redução do desemprego, transferências de renda pelo estado e elevados preços de commodities em dólar no mercado mundial por conta da descomunal expansão da economia chinesa. Umas das principais consequências desse movimento foi a apreciação cambial real e nominal no Brasil. A taxa de cambio nominal saiu de R$4 no início do governo Lula para R$1,50 antes da crise de 2008. O preço dos serviços domésticos aumentou fortemente, contribuindo para a apreciação do cambio real. Essa combinação de alta de preços de serviços, alta de preço de commodities em dólares e apreciação cambial aumentou muito a rentabilidade das atividades de importação em geral, serviços, varejo, construção civil e produção de commodities. A produção domestica de manufaturas e bens industrias perdeu muita rentabilidade e regrediu.

Ate 2007 a indústria brasileira conseguiu ainda acompanhar o boom de demanda aumentando a produção, ainda na esteira da desvalorização cambial de 2002. A partir da crise de 2008 a indústria brasileira sucumbiu à concorrência internacional, aos aumentos de custo de produção em reais (principalmente salários) e a forte apreciação do cambio nominal e real. A expansão de PIB observada no pós 2008 foi toda baseada em serviços não sofisticados e construção civil (quadro típico de doença holandesa). A demanda por bens industriais foi totalmente suprida por importações. Sem estímulos para produzir domesticamente o empresário industrial brasileiro passou a ser importador, montador ou simplesmente encerrou seu negocio. Houve enorme perda de complexidade produtiva da economia brasileira como mostra o gráfico abaixo. A produtividade total da economia caiu e vai continuar caindo. Ate mesmo os serviços sofisticados (bancos, marketing, design, logística, advocacia) começam a regredir por conta de dependência que tem em relação ao setor industrial complexo. O quadro para o futuro e’ alarmante pois graças ao que se conhece como histerese (em física e economia) a reconstrução do tecido produtivo brasileiro será lenta e dolorosa. A desvalorização cambial não produzira imediatamente a reconstrução do setor de bens transacionáveis não commodity brasileiro. Ou seja, o que o cambio apreciado destruiu em 5 anos não será reconstruído com desvalorização cambial nos próximos 5 anos.

Como bem ressalta o economista argentino Roberto Frenkel num trabalho recente, aquele que se queima com leite vê uma vaca e chora! (ditado argentino). Será muito difícil convencer os empresários brasileiros a voltarem a investir no setor de bens transacionáveis não commodities depois de uma década de sobrevalorização cambial. Sem esses investimentos não haverá aumento de produtividade e complexidade e nossa renda per capita mal conseguira crescer, se é que vai crescer nos próximos anos. As inovações e mudanças tecnológicas ocorrem no setor de transacionáveis não comodities principalmente. Então de nada adianta melhor burocracia, infra, etc.… se os preços macro estiverem desalinhados. Vale dizer, a inovação não virá do setor de serviços não sofisticados. E os serviços sofisticados dependem muito da indústria e dos setores complexos. Ou seja, sem rentabilidade para se investir em tradables não há inovação; daí vem a importância dos preços relativos (cambio). Por outro lado, o ajuste de preços relativos entre bens e serviços transacionáveis e não transacionáveis levara tempo para produzir seus efeitos.

Nesse contexto o ajuste de contas externas continuara pela via da desvalorização cambial e da recessão. Nossa conta corrente esta passando por uma melhora significativa, mas o ajuste se faz principalmente pela via da enorme retração da demanda domestica nesse ano e no próximo. Esse movimento provoca grande queda das importações e reequilibra a balança comercial e contas correntes. Estruturalmente não existe ainda praticamente mudança. Se a economia voltar a crescer, as contas externas voltarão a ser pressionadas ate que a estrutura produtiva brasileira seja capaz de reagir com “substituição de importações”; e para isso um cambio mais competitivo continuara sendo necessário nos próximos anos. O canal de financiamento externo se agravou por conta da dinâmica fiscal. Sem volta do crescimento não haverá arrecadação, o que complica muito o reestabelecimento de uma dinâmica de divida publica sustentável. O ajuste fiscal pela via do corte de gastos e criação de novos impostos e’ importante mas não resolve a questão. Somente o retorno de taxas de crescimento mais elevadas trará tranquilidade fiscal no longo prazo. Ate lá o risco pais e CDS continuarão pressionados, as taxas de juros curtas e longas também e o cambio depreciado seguira pressionando a inflação.

*Paulo Gala é graduado em Economia pela FEA/USP. Mestre e Doutor em economia pela FGV-EESP. Pesquisador visitante nas Universidades de Colúmbia, em NY, e Cambrige, na Inglaterra.