Fábrica de engenheiros

Revista Isto É Dinheiro, em sua edição de 1/3/2013, traz especial sobre a demanda por engenheiros no Brasil. A reportagem, que esteve na sede do Isitec, cita o seu projeto educacional de inovação na engenharia e aborda os planos de empresas e univers

No fim de 2000, o brasiliense Arthur Cecílio era, aos 26 anos, um engenheiro civil recém-formado pela Universidade de Brasília (UnB), sem muitas certezas sobre o que o futuro lhe reservava. Naquela época, apenas um terço dos alunos da UnB, em média, concluía o curso de engenharia, pois a perspectiva de conquistar um bom emprego era quase nula. “Muitos colegas de faculdade desistiram da engenharia, no meio do caminho, e prestaram concurso público”, diz Cecílio, que atualmente é gestor corporativo de negócios da Tecnisa, no Distrito Federal. “Eu só consegui um emprego, naquele tempo, porque tinha uma picape para trabalhar, pré-requisito para a vaga disponível.”

Dez anos depois, o goiano Danilo Oliveira, aos 25 anos, se formaria em engenharia civil na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O quadro era completamente diferente. Não faltavam propostas de trabalho e ele optou pelo setor financeiro. Um fato, no entanto, não mudou. A evasão dos cursos de engenharia continuava altíssima. “Da minha turma de 50 alunos, apenas 19 se formaram”, diz Oliveira, que atua como analista de negócios do Itaú. Eis a primeira pista para explicar por que o Brasil ainda sofre com a falta de engenheiros. Ao contrário do que o persistente diagnóstico da carência dessa mão de obra qualificada pode levar a supor, não faltam vagas em escolas de engenharia, que poderiam estar formando o número de profissionais de que o País tanto necessita.

Segundo o Instituto de Engenharia, entidade que representa a categoria no País, o déficit atual é de 800 mil engenheiros. “Mas não podemos pensar em criar mais escolas na área”, diz José Roberto Cardoso, diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Segundo o professor Cardoso, somando todas as faculdades, há cerca de 300 mil vagas no primeiro ano. Potencialmente, se nos próximos cinco anos o Brasil mantivesse a entrada de alunos nesse patamar, em 2018 haveria quase 1,5 milhão de alunos estudando engenharia.

Evasão

Vagas e matrículas, no entanto, não significam necessariamente gente formada. Numa conta simples, é possível perceber que a evasão supera os 50%. Em 2007, quase 114 mil alunos ingressaram em cursos de engenharia. Cinco anos depois, apenas 45 mil deles receberam o diploma (veja quadro “Graduação em alta”). Para o governo federal, esse quadro já está mudando. “Estamos incentivando o ensino da matemática no ensino médio”, diz o ministro da Educação, Aloizio Mercadante (leia entrevista ao final da reportagem). “Um dos caminhos é a olimpíada de matemática, com 20 milhões de alunos.” Investir no ensino médio é, de fato, imprescindível. “As escolas de engenharia estão gastando o primeiro ano para ensinar fundamentos de matemática, física e química”, diz Aluízio de Barros Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia. Ainda assim, muitos universitários não conseguem acompanhar o ritmo das aulas e se transferem para outros cursos, como administração, economia e direito. Mas há mudanças simples que poderiam reter os jovens nas universidades.

Uma delas envolve a grade curricular que, segundo jovens e veteranos, é muito pesada nos dois primeiros anos. “Tenho pesadelo das aulas de cálculos até hoje”, afirma o brasiliense Arthur Cecílio, que se formou há 13 anos. “Nas universidades americanas, a matemática e a física ficam distribuídas ao longo do curso”, diz Cardoso, da Poli-USP. Outra barreira que precisa ser superada é a distância do conteúdo da academia com o que o mercado de trabalho procura.

A necessidade de uma transformação profunda nos cursos foi, nos últimos dez anos, tema de intensos debates no Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp). Diante da lentidão das universidades para promover alterações, o sindicato decidiu investir R$ 10 milhões na fundação do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), que terá o primeiro curso de engenharia da inovação do País, a partir de agosto.

O primeiro diferencial do curso de Inovação é o fato de ele ter sido criado a “quatro mãos” com o setor privado. “Tivemos os olhos das empresas para construir o currículo”, diz Murilo Pinheiro, presidente do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp).

A Embraer foi uma das empresas convidadas a colaborar na formação da grade de aulas. O vice-presidente-executivo de pessoas da fabricante de aeronaves, Jackson Schneider, que tem cerca de 3,5 mil engenheiros sob sua gestão, conhece bem as dificuldades na hora de recrutar trabalhadores. “Nós contratamos profissionais de outras áreas, que passam por um treinamento específico de aeronáutica”, diz Schneider. Com o ambicioso objetivo de ter uma evasão zero, o curso do Isitec prevê uma melhor distribuição da carga de matemática e física ao longo dos cincos anos, seguindo o modelo americano. “Vamos dosar, desde o começo, as matérias básicas com as matérias profissionalizantes”, diz Antonio Octaviano, diretor-geral do Isitec.

O grupo alemão Voith, que fabrica máquinas e equipamentos no Brasil, também ajudou na elaboração do conteúdo programático. “Um curso inovador proporciona uma vantagem ao aluno no mercado de trabalho”, diz Edgar Horny, presidente do Conselho Regional da Voith. Na mesma linha do Isitec, a escola de negócios Insper, de São Paulo, e a unidade da USP de São Carlos, no interior paulista, estão modernizando o ensino. Esta última chegou a convocar o astronauta Marcos Pontes para montar o novo curso de engenharia aeroespacial, inserindo matérias de humanas. “Incluí aulas de gerenciamento de pessoas e de projetos”, diz o astronauta. “Não tem jeito, mais cedo ou mais tarde esses engenheiros estarão liderando equipes.” A Insper, por outro lado, está criando um curso para formar engenheiros empreendedores.

Mão de obra estrangeira

No curto prazo, a carência de engenheiros no Brasil tem intensificado o debate sobre a importação de profissionais. Nos anos 1970, o Brasil atraiu uma leva de engenheiros do Exterior quando as montadoras estavam a pleno vapor. Hoje, o momento é propício para um novo ciclo de imigração. Mesmo assim, o tema é visto com desconfiança pelas entidades do setor. “Importar mão de obra é apenas um paliativo”, diz Sergio Watanabe, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon-SP). “Quando a situação econômica melhorar lá fora, esses profissionais podem simplesmente deixar o Brasil.” Outra preocupação é a barreira da língua. “Tem engenheiro sobrando na China e na Índia, mas o idioma inviabiliza a importação”, diz Aluizio Fagundes, presidente do Instituto de Engenharia. O Secovi-SP, que representa as empresas do setor imobiliário, tem recebido demanda para trazer profissionais da Argentina, de Portugal e da Espanha. O problema é a burocracia desse processo. “O visto de emprego pode demorar até dois anos para sair”, diz Claudio Bernardes, presidente do Secovi-SP. “Fazer com que os engenheiros convertam o seu diploma é mais complicado ainda.”

Salários em alta

Razões para vir ao Brasil não faltam. Além das dificuldades econômicas em seus países de origem, os estrangeiros estão de olho na remuneração oferecida no Brasil. Um levantamento feito pela consultoria global de gestão de negócios Hay Group mostra que os salários continuam num patamar elevado, após um boom de reajustes entre 2008 e 2010. “A construção civil paga tão bem quanto qualquer área, incluindo salários e benefícios”, diz Alexandre Pacheco, gerente da Hay Group, em São Paulo. Um salário-base de recém-formado, ou engenheiro júnior, supera os R$ 5,5 mil (veja quadro “Bem remunerado”). Para a categoria sênior, a remuneração chega, em média, a R$ 9 mil, sem contar bônus e benefícios. Mas quando trocam o capacete pelo terno e gravata, para assumir cargos de gestão, o céu é o limite. Pacheco, da Hay Group, não tem dúvidas de que os ventos estão mais favoráveis do que nunca para quem trilhou essa carreira. “Se o Brasil voltar a crescer 3,5% ao ano, não faltará espaço para os jovens engenheiros”, afirma. Para quem viveu o drama da década de 1990 e do início dos anos 2000, como o engenheiro Arthur Cecílio, o quadro atual é um paraíso. “Hoje, ninguém mais pede uma picape no currículo”, diz Cecílio. Para as empresas, a falta de mão de obra representa um custo. Se os cálculos do governo e das entidades privadas estiverem corretos, a fábrica de engenheiros estará operando a pleno vapor em até cinco anos, estabilizando a relação entre oferta e demanda.

*Confira a íntegra da matéria em: www.istoedinheiro.com.br/noticias/113520_FABRICA+DE+ENGENHEIROS