Engenharia deve ir além da matemática

Especialista defende ensino diferente, com foco na geração de profissionais inovadores

A falta de engenheiros não é problema exclusivo do Brasil. Ela afeta também os Estados Unidos onde quase metade dos alunos que entra no curso não se forma. A razão disso é a maneira com que a engenharia é ensinada hoje, que pouco tem do verdadeiro processo por trás do ofício e que não gera profissionais inovadores. A opinião é de Richard K. Miller, engenheiro e presidente da Franklin W. Olin College of Engineering, instituição americana que propõe um ensino diferente da profissão.

Miller participou na manhã desta terça-feira (30) de um debate na escola de negócios Insper. O professor falou sobre inovação, algo que julga ser essencial quando o assunto é o que precisa mudar na formação de engenheiros. Para ele, um engenheiro é alguém que visualiza algo que nunca existiu e que faz de tudo para transformar isso em realidade. Desse modo, disciplinas como matemática e ciências são importantes, mas não devem ser o fundamento do ensino.

“Os engenheiros não são recrutados por sua visão, mas por suas notas em matemática. Talvez não estejamos atraindo as pessoas certas, nem ensinando o conteúdo ideal”, diz. Exemplo disso, além dos altos índices de evasão, é a incapacidade de atrair mais mulheres para a área – ele estima que apenas 20% dos alunos americanos de engenharia sejam do sexo feminino. Na Olin, em que as aulas têm um formato de laboratório, a turma que vai começar em setembro tem 54% de mulheres.

Para desenvolver a capacidade de inovar, Miller afirma que é preciso investir na multidisciplinaridade e ensinar além daquilo que é possível de acordo com as leis naturais, como acontece hoje. No entanto, é fundamental também mostrar o que é viável economicamente – como é ensinado nas escolas de negócios -, e o que é desejável, cultural e socialmente – como se aprende em disciplinas de humanas. “É preciso expor as pessoas a essas ideias de uma só vez.”

Para atrair mais pessoas – e com o perfil certo – para a engenharia, Miller diz que usa a vontade que o jovem tem de mudar o mundo. “Digo a eles que podemos encontrar maneiras práticas para que façam isso.”

Fonte: Jornal Valor Econômico – 29/7/2013