Engenharia – Cidades inteligentes para melhorar a qualidade de vida

A sociedade da informação, conectada em redes digitais, discute o seu futuro nos espaços urbanos. Para alguns especialistas, o caminho que se apresenta é o das cidades inteligentes – smart cities, em inglês – ou conectadas ou, ainda, humanas inteligentes. Tecnicamente, Marcelo Zuffo, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e coordenador do Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas da mesma instituição, explica que tais localidades necessariamente têm boa infraestrutura de internet e lançam mão de dispositivos eletrônicos, como sensores e atuadores, para aprimorar os serviços urbanos.

O especialista salienta que, com tais instrumentos, é possível criar uma rede orgânica para uma gestão pública eficiente e eficaz na distribuição e consumo de água, no controle da poluição e do gasto de energia, na segurança pública, no combate às drogas, na concentração populacional e nos sistemas de transporte e semafórico. A smart city é um dos 14 grandes desafios designados pela Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos (National Academy of Engineering), observa o professor. “É uma engenharia intrinsecamente voltada à gestão de serviços públicos.”

Na cidade conectada, o transporte, exemplifica Zuffo, passaria a ter maior fluência. “O dado global de 150 quilômetros de congestionamento em São Paulo serve para quê, sem inteligência agregada?”, questiona. “No entanto, com os sensores e a internet, gera-se, conhecimento para que o poder público ou até mesmo o indivíduo tome decisões. Aqui, entra outra dimensão importante de uma cidade inteligente, ela é interativa e colaborativa”, afirma. Nesse contexto, Zuffo destaca que em São Paulo, o maior município do País, todos os ônibus já são rastreados, conseguindo-se medir, em tempo real, a velocidade de cada um. Ele propõe que tal sistema seja estendido aos táxis e veículos particulares, para se ter uma rede inteligente na mobilidade urbana.

Era industrial

O professor Neri dos Santos, do Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), analisa que o novo modelo surge quase como uma necessidade humana, porque está impossível e insustentável morar em cidades que ainda remetem à era industrial, cujo representante mais evidente é o automóvel. “A preocupação da cidade inteligente é antropocêntrica, ou seja, desenvolver um ambiente para as pessoas terem uma melhor qualidade de vida.”

A mudança das cidades brasileiras, que já abrigam 70% da população nacional, é fundamental para que muitas delas não se inviabilizem e não parem por completo, uma possibilidade concreta, na avaliação de Santos, que prevê o colapso da capital paulista em 2030. Assim, ele defende que o uso e a ocupação dos espaços urbanos sejam resgatados para os fins a que se destinam: moradia, trabalho, deslocamento, diversão/lazer e convivência. “De forma bem objetiva, uma cidade inteligente é aquela onde as pessoas têm a possibilidade de fazer tudo isso no mesmo lugar”, esclarece. E continua: “Elas não podem ter um centro, uma periferia, devem ser policentradas.”

O professor da UFSC diz, ainda, que tal modelo começa a ser gestado a partir de uma política pública deliberada de transpor as cidades para a era do conhecimento. “A sociedade industrial foi de exclusão, a do conhecimento é de compartilhamento.”

A engenharia é componente fundamental para a realização dessa nova vida urbana, que está ligada diretamente às novas tecnologias de comunicação, fazendo com que a informação circule com maior velocidade, consequentemente criando mais conhecimentos. “Os profissionais da tecnologia vão transformar tudo isso em artefatos, em novos meios para permitir que a capacidade humana seja significativamente ampliada e suas limitações superadas.”

Conforme Zuffo e Santos, o Brasil ainda não tem cidades inteligentes, mas apenas iniciativas pontuais. São os casos dos municípios do Rio de Janeiro, que criou um sistema supervisório, com alguns projetos pilotos onde se tenta administrar a questão do lixo, e de São Paulo, com dois ou três sistemas de controle na São Paulo Transporte (SPTrans), na Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e no Metrô. E, recentemente, segundo Santos, a Prefeitura Municipal de Florianópolis (SC) colocou no seu Plano Plurianual (PPA) um programa de cidade inteligente. (Por Rosângela Ribeiro Gil)

Fonte: Jornal do Engenheiro – Edição 435