Diretas talvez fossem uma lufada de ar fresco

Diretas talvez fossem uma lufada de ar fresco

Por: Clóvis Rossi

Fonte: Folha de S. Paulo

 

Diretas-já não é abrir para o Brasil as portas do paraíso. Mas pode ser a abertura de uma fresta pela qual entrará, com sorte, um pouco de ar fresco no sufocante ambiente em que vive o país.

Sublinhe aí, por favor, o “com sorte”, porque no Brasil de hoje nada se pode dar como seguro.

Feita essa declaração de voto, concordo, entretanto, com a balsâmica coluna em que Vinicius Mota adverte, falando das diretas mas também da reforma da Previdência, que “o Brasil não vai acabar nem se salvar amanhã”.

Balsâmica porque foi uma necessária lufada de sensatez em meio a um debate público viciado por uma gritaria infernal, em meio à qual os contendores se esbofeteiam uns aos outros. Se a conflagração verbal estivesse produzindo resultados, ainda seria perdoável. Mas não está, como se vê pela putrefação do estado da pátria nesses anos todos de gritaria.

Fica, pois, combinado que a eventual introdução das diretas-já não é a pomada-maravilha que curará todos os infinitos males do Brasil. Mas pode, eventualmente, ter a vantagem de oxigenar o ambiente.

Acaba de acontecer na França, país em que “resmungar se tornou um modo de vida, uma resposta à ‘grandeur’ perdida”, como escreveu, antes da eleição de Emmanuel Macron, o excelente colunista do New York Times que é Roger Cohen.

Claro que não dá para comparar Brasil e França nem no atacado nem no varejo das crises mais recentes cá e lá.

Mas dá para torcer para que o momento pós-eleitoral tenha efeito parecido cá e lá. O momento francês está no seguinte pé, segundo a descrição de “El País”:

“A chegada ao poder de Emmanuel Macron —um homem jovem para o cargo, quase novato na política e com um programa europeísta e liberal— rompe inércias e sacode muitas coisas. A França (…) volta a estar em voga. É ‘cool”.

Já sei que você vai dizer que no Brasil não há nenhum Macron à vista, nenhum jovem que seja potencial candidato, nenhum candidato que seja a promessa de romper inércias.

OK, estou de acordo. Mas qual é a alternativa às diretas? Uma eleição indireta, ainda mais com esse Congresso desmoralizado, vai desintoxicar o ambiente? Mais ano e meio de Michel Temer devolverá o sorriso à pátria irritada e exangue?

Eleição direta é sempre uma chance de rediscutir e redesenhar o país. Se Luiz Inácio Lula da Silva for o eleito, como teme boa parte dos que se opõem às diretas, faz parte do jogo. Vetar uma eleição porque pode ser vencida por alguém que não agrade a uma parte do público é vetar a democracia. Ponto.

A única forma de evitar a vitória de Lula não é fugir da eleição, adiando-a para 2018, mas construir uma candidatura que seja atraente para a maioria.

O problema maior para fazer as diretas-já é o tempo que, em tese, levará para aprovar uma emenda constitucional que a autorize. E, mais, a perspectiva de que a emenda tenha a maioria dos votos, mas não os suficientes para ser aprovada.

Nesse caso, terá sido perdido um tempo precioso em um momento em que o estado comatoso do país não permite dilações.

Mas a simples colocação das diretas-já na agenda pública abre uma fresta no sufoco e, no mínimo, permite que se ouça “boa música”, como aconteceu domingo (28) no Rio de Janeiro.

Não é, repito, a panaceia universal, mas é sempre melhor do que ouvir, noite após noite, os sinistros vídeos dos irmãos Batista e cia.

 

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