“Cresce Brasil” e os entraves ao desenvolvimento

Em reunião em abril, na sede do SEESP, na Capital, teve início a discussão sobre a continuidade do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”. Lançada pela FNE (Federação Nacional dos Engenheiros) em 2006 e atualizada três anos depois, a iniciativa conta com a adesão desse e dos demais sindicatos a ela filiados. Propõe uma plataforma nacional de desenvolvimento sustentável com inclusão social.

Nesta fase, como indicou Murilo Celso de Campos Pinheiro, presidente do SEESP e da FNE, a ideia é apontar a conjuntura atual e buscar soluções para enfrentar os entraves ao crescimento socioeconômico. Ele concluiu: “A ideia é debatermos o tema em dois grandes eventos, um na região Norte e outro na Sul, e fecharmos o documento em maio de 2014, num seminário em São Paulo, para termos em meados do próximo ano um caderno a encaminhar aos candidatos a presidente, a governadores nas eleições.” Para o coordenador do “Cresce Brasil”, Fernando Palmezan, essa é mais uma etapa para ajudar o País a superar os obstáculos ao desenvolvimento.

No geral, mais do que discussões setoriais, dominaram as preleções de consultores análises de conjuntura, a urgência do planejamento e possíveis saídas. Marco Aurélio Cabral Pinto destacou que o momento é de transição “para se sair da armadilha financeira e se resgatar o desenvolvimento nacional”. Entre os desafios, ele salientou a premência de se rever políticas fiscais e tributárias de forma conjugada, dar um salto na recuperação da indústria e fortalecer o pequeno capital de controle nacional. Apoiar estados e municípios em projetos e investimentos que atendam as demandas locais também foi elencado pelo especialista.

Já Antonio Correa de Lacerda levantou a apreensão de que, no longo prazo, haja aumento da vulnerabilidade externa. “Não estamos diante de um problema de solvência, mas preocupa o aumento do déficit de conta corrente e de serviços. O Brasil tem superávit na balança comercial, mas está cada vez mais dependente de commodities. E vive grave processo de desindustrialização.” Ele alertou também para a desnacionalização, com o deslocamento de centros de decisão da cadeia produtiva para matrizes no exterior. Outro gap seria a questão tecnológica, na sua visão. Lacerda acredita que o “Cresce Brasil” deve se debruçar sobre a superação desses impasses. Na ótica de Darc Costa, falta um projeto nacional, que leve em conta o planejamento de longo prazo. Esse seria o caminho para conter o processo de desindustrialização, submeter a economia à política e garantir à população qualidade de vida.

Para o consultor sindical da FNE, João Guilherme Vargas Netto, a tarefa é “botar de pé a nova etapa do ‘Cresce Brasil’”, fazendo frente à tentativa dos rentistas de evitarem que se conclua a transição do modelo de financeirização da riqueza para outro, baseado no desenvolvimento produtivo. Marcio Pochmann acredita que esse ciclo está próximo de se encerrar. E apontou entre os desafios, além da crise global, enfrentar o poder das grandes empresas transnacionais.

Ideias e diretrizes

Pochmann jogou luz ainda sobre as mudanças na estrutura demográfica e laboral que precisarão ser consideradas no “Cresce Brasil”. “Há um processo de envelhecimento da população, bem como de centralidade do trabalho no dia a dia das pessoas. É preciso pensar como organizar a vida dentro dessa perspectiva.”

Marcos Dantas, por sua vez, centrou sua fala no tema das comunicações. “Há amplo campo para se discutir em termos de políticas públicas, investimentos, oportunidades tecnológicas e industriais, particularmente para a engenharia eletrônica brasileira.” Ele detalhou: “No mundo e de alguma forma no País está se saindo do modelo analógico para o digital, de plataformas como a terrestre e a cabo para grande infraestrutura razoavelmente unificada que atende pelo nome genérico de banda larga.” O debate, de acordo com o especialista, é sobre um projeto de universalização, dentro de um modelo de regulação pública. Todavia, completou, “do ponto de vista tecnológico, da maneira como está se dando, o processo está sendo comandado pelas grandes operadoras de telecomunicações”.

Sobre o agronegócio, Paulo Estevão Cruvinel enfatizou: “Estamos caminhando para uma população mundial de 8 bilhões de habitantes, tem o problema da segurança e saúde alimentar. É necessário um forte programa agroindustrial brasileiro. Cinquenta e sete por cento das empresas do segmento controlam 40% da balança comercial e continuamos vendendo commodities. Há grande espaço para agregação de valor e para a engenharia.” Também presente ao encontro, Bernardo Figueiredo, presidente da EPL (Empresa de Planejamento e Logística), traçou panorama do transporte e logística no País e indicou a necessidade de ampliar os investimentos, com a participação da iniciativa privada.

Carlos Monte, coordenador técnico do “Cresce Brasil”, salientou um dos pontos que acredita ser importante para nortear o trabalho: a necessidade de integração sul-americana, sobretudo quando se direciona o olhar para a questão energética. “A maioria das fontes para projetos hídricos, sem grandes impactos ambientais, encontra-se nos países vizinhos.”

Para Vargas Netto, os eixos centrais do novo “Cresce Brasil” devem ser democracia; salários, emprego e distribuição de renda; qualificação; e projetos e engenharia. No encontro, além do SEESP e de dirigentes da FNE, estiveram representantes dos Senges Acre, Alagoas, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Piauí, Mato Grosso e Santa Catarina.

Por Soraya Misleh – Imprensa/SEESP