A verdade está lá fora

Celso Rocha de Barros
A aterrissagem difícil da economia chinesa deveria ser suficiente para que parássemos de discutir a crise internacional apenas em termos do quanto ela absolve Dilma Rousseff.
Se não for suficiente, mesmo isso terá um lado bom: muita gente que poderia estar dizendo besteira sobre a crise está ocupada discutindo impeachment no Facebook. Abre-se assim espaço para uma conversa séria que deveria ter começado em 2008.
O debate público brasileiro ignorou solenemente a crise que começou em 2008. Nesse meio tempo discutimos Black Blocs, Cubocards, Distritão, o Foro de São Paulo, auditoria da dívida, 10% do orçamento vinculados a todos os temas possíveis, e teve mesmo um sujeito na “Veja” que fez um soneto para o Olavo de Carvalho. Mas nada de discussão sobre a crise mundial que, segundo os cálculos do economista Barry Eichengreen, ameaçou ser maior do que a de 1929 (e, na Europa, foi).
A tese da “marolinha” migrou de lado no espectro político com velocidade vertiginosa: foi lançada por Lula no momento em que a crise bateu nos centros financeiros do mundo. À medida em que migrou para a China, os efeitos sobre o Brasil se tornaram maiores. Foi a vez da oposição passar a excluir os eventos internacionais das análises sobre o Brasil. Quem subestimava a importância do ciclo das commodities passou a superestimá-la, e vice-versa.
Em 2014, Armínio Fraga disse que “a crise terminou em 2009”. Ninguém teve muito interesse em lhe pedir que justificasse sua tese. Não tenho dúvida de que talvez conseguisse fazê-lo: Fraga é um dos grandes formuladores de política econômica de sua geração. O PT errou a mão ao criticá-lo na campanha de 2014.
Mas a tese do “acabou em 2009” é controversa. Estados Unidos, Europa e China entraram em crise em sequência. Pode ser coincidência, mas, se for, haja azar. Há gente bem inteligente que explica isso tudo por desequilíbrios internacionais, como o “excesso global de poupança” (global savings glut). Escolha os seus cinco economistas brasileiros favoritos: você sabe a posição deles sobre essa tese? Eu não sei.
Por outro lado, na esquerda a falta de discussão sobre a crise teve consequências ainda piores, porque permitiu embrulhar medidas anti-crise no pacote da Nova Matriz Econômica. Isso dificultou abandoná-las quando chegou a hora de fazê-lo. Uma coisa é abandonar “um negócio aqui que fizemos porque achávamos que o Euro ia acabar”, outra é abandonar “um novo paradigma que superou o neoliberalismo”.
Enfim, talvez a imensa turbulência por que passa o mundo há vários anos não devesse ser completamente ignorada na discussão nacional.
E, para quem quiser a minha opinião sobre “foi culpa da Dilma?”: os emergentes em geral desaceleraram, o que exclui a tese “crise inteiramente gerada aqui dentro”. Mas o Brasil desacelerou bem mais, e aqui entra o fracasso da Nova Matriz Econômica. Mas aqui também devem entrar problemas de longo prazo da economia brasileira, que cresce pouco desde os anos finais do regime militar (aceitando aqui, por consistência, que a alta do crescimento nos anos Lula foi em parte causada pela alta das commodities).
O debate relevante é como superar esses obstáculos. Para quem não se interessar por essas coisas, corram lá, está tendo impeachment no Facebook.
FONTE: Folha de São Paulo – 25/01/2016

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